As meninas não tem medo da ciência

Piquenique no encerramento do Mergulho na Ciência USP – Foto: Prislaine Krodi

Entre os dias 24 e 27 de julho, as salas de aula e laboratórios do Instituto Oceanográfico receberam uma turma de alunas bem mais jovens que o habitual. Cinquenta meninas, alunas do 5º ao 9º ano do Ensino Fundamental, participaram do curso de cultura e extensão Mergulho na Ciência USP e puderam experimentar um pouquinho de vários campos científicos, através de palestras e aulas práticas com professoras e pesquisadoras de diferentes áreas.

O projeto é coordenado pela professora do Instituto Oceanográfico (IO), Profª. Drª. Camila Negrão Signori, em parceria com professoras e pesquisadoras da USP e de outras instituições de ensino e a colaboração de funcionárias e funcionários do IO, que dão todo o suporte para a realização do evento.

Esta é a segunda edição do curso, que no ano passado se chamava Meninas com Ciência. O objetivo desta iniciativa é incentivar que mais meninas e mulheres escolham fazer Ciência como profissão, especialmente nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), nas quais elas ainda são minoria. Segundo dados da UNESCO, apenas 35% das alunas de ensino médio se inscrevem para cursos científicos na faculdade e as mulheres são menos de 1/3 do total de pesquisadores em todo mundo.

Todas as meninas que participaram do curso foram selecionadas por meio de um sorteio e as vagas foram divididas entre 25 alunas de escolas públicas e 25 de escolas particulares. Em 2019, o número de alunas interessadas no curso chegou a 4 mil, enquanto no ano passado, cerca de 12 mil meninas se inscreveram. O curso é gratuito e oferece para as meninas a oportunidade de viverem alguns dias na rotina da comunidade universitária, com direito a almoço no bandejão e piquenique no gramado do IO no último dia.

Inspirando futuras cientistas

  

As professoras e pesquisadoras convidadas para darem as aulas sempre contam um pouco de sua experiência e trajetória profissional. Em quatro dias de atividades, as meninas aprenderam noções básicas de metodologia científica; conheceram o que fazem as oceanógrafas, astrônomas, farmacêuticas e engenheiras; estudaram física, neurociências e astrobiologia; foram aos laboratórios para descobrir mais sobre microorganismos e evolução dos animais; e conheceram a ciência por trás da perfumaria, criando seus próprios perfumes.

O Mergulho também aborda a importância da ciência no cotidiano. A pós-doutoranda do IO, Ana Paula Dornellas, participa como cientista desde a primeira edição do evento. Sua especialidade é o estudo da evolução de moluscos e ela vê nas aulas a chance de explorar temas relevantes para o meio ambiente.

Falar sobre biodiversidade e evolução é muito importante e falta muito nas escolas e mesmo em mídias e debates importantes para que elas possam ter acesso. Eu acho esse evento incrível e eu fico muito feliz de poder colaborar.

Na tarde de sexta-feira, as meninas receberam a visita do reitor da USP, Prof. Dr. Vahan Agopyan, que falou sobre a importância da ciência para o desenvolvimento do país e elogiou a disposição delas em dedicar parte das férias para estudarem ainda mais. Ele parabenizou também o empenho de toda a equipe organizadora.

O Reitor ressaltou ainda a importância do Mergulho na Ciência para que as universidades sejam espaços mais plurais e igualitários. Neste sentido, Agopyan relembrou o compromisso assumido pela USP com a ONU Mulheres através do Movimento ElesPorElas e do Projeto Impacto 10x10x10, que reúne universidades, empresas e governos com o objetivo comum de promover políticas que proporcionem a equidade entre gêneros nos três setores.

A ciência desenvolve o mundo e garotas como vocês, que têm a curiosidade e não temem o conhecimento, são a esperança desse País. Ciência e conhecimento não têm gênero, são universais.

Em 2019, o Mergulho na Ciência USP recebeu o apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU), através do Edital Empreendedorismo Social, e firmou parcerias externas com a Editora Panda Books, Editora do Brasil, Donas da Rua da Turma da Mônica (Maurício de Sousa Produções), Tempo Vocação, Girl Up (ONU Mulheres), A Pequena Princesa, Happy Code, Garatéa Missão Lunar, LUCA Ciência para Educar, APECS-Brasil e Bate-Papo com Netuno.

Visita do reitor Vahan Agopyan ao Instituto Oceanográfico no evento Despertando para a Ciência com o Projeto Mergulho na Ciência . Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Compartilhando conhecimentos

Além do incentivo para futuras cientistas, o projeto também estimula e valoriza as mulheres que estão em formação ou já atuam na Ciência. Todas as monitoras que participam do projeto são alunas de graduação de universidades públicas e privadas que se inscreveram voluntariamente para colaborar com o Mergulho na Ciência.

Para a monitora Catarine, que é estudante de medicina, o projeto é uma grande oportunidade para aprender e ensinar ao mesmo tempo.

Aqui com as meninas a gente tem muito isso, uma troca de experiências com elas. Elas ensinam o que sabem, o que elas ouviram e a gente fala um pouco do que a gente sabe, da nossa experiência como universitária.

A estudante de medicina acha que fez falta um projeto como esse na época em que era estudante do ensino fundamental. Para ela, ter esse primeiro contato com cientistas e com o trabalho que realizam ajudaria muitas meninas a escolherem qual carreira seguir.

As famílias também ficam muito animadas com a oportunidade de suas filhas frequentarem o projeto. Camila Signori contou que neste ano algumas mães de meninas que se inscreveram para o curso também se voluntariaram como monitoras. E alguns pais também se animaram com a ideia, como o responsável pela área de marketing do grupo O Boticário, Jean Bueno, que soube do Mergulho na Ciência através da filha e resolveu ajudar a organizar a aula sobre perfumaria que aconteceu na sexta-feira.

A lição que fica destes quatro dias intensos vai muito além dos conhecimentos e experimentos científicos. É um aprendizado de empoderamento que fica para a vida toda e que a Laura, de 11 anos e aluna do EMEF Dona Chiquinha Rodrigues, resumiu muito bem:

Eu acho que as mulheres podem correr atrás dos seus sonhos, eu acho que elas podem batalhar pelo que elas querem. Por exemplo, se ela quiser ser cientista, astronauta, advogada ela pode ser, é só ela correr atrás.